O Canto da Sereia, Nelson Motta

Foi ao ar na última terça-feira na Globo o primeiro capítulo da minisérie O Canto da Sereia, baseado no livro homônimo do paulistano Nelson Motta, que podemos julgar baiano, pela intimidade com que descreve a paisagem e o povo nesse delicioso livro.

ocantodaserieaLi este noir baiano há mais de 3 anos, emprestado de uma amiga querida, e posso não me lembrar de alguns detalhes, mas com certeza passei horas divertidíssimas com o Augustão, o detetive que investiga o misterioso assassinato de Sereia, a nova sensação do axé e musa do carnaval.

Sereia era uma jovem cantora, promovida por profissionais para virar uma grande estrela, mas que carregava uma paixão capaz de arrebatar todos à sua volta, o que pode ter sido sua ruína.

Uma história envolvente, de amor, sexo, dinheiro e até mesmo política, traz muitas surpresas, e o mistério é mantido até o final, impossível prever o culpado, impossível defender qualquer personagem.

Eu provavelmente não assitirei à minissérie(já perdi os primeiros capítulos), Ìsis Valverde tem inegavelmente a beleza natural de Sereia, mas espero que faça jus às peculiaridades da personalidade dela.

E sobre o livro, eu recomendo, é claro!


O Canto da Sereia – Um Noir Baiano
Nelson Motta
Objetiva
Páginas: 260
Ano: 2002

O sentido de um fim, Julian Barnes

“História é aquela certeza fabricada no instante em que as imperfeições da memória se encontram com as falhas de documentação.”

Acho que passei os últimos dois meses encarando essa resenha e pensando em como resumir, indicar ou falar sobre os efeitos que este livro pode causar. O rascunho estava salvo no wordpress desde o dia em que terminei de ler a última palavra da história de Tony Webster. Tudo que escrevi parecia bobeira, mas resolvi terminar logo, lembrando que esse blog não foi feito pra acertar sempre, e que ele é principalmente sobre o impacto que cada livro nos causa, e este foi um bem difícil pra mim.

Um charmoso sessentão, Tony Webster, narra sua história sentado em uma confortável poltrona de couro, bebericando whisky vez ou outra, em sua impecavelmente organizada sala de estar. Pelo menos é assim que imagino. (Essa foi a primeira frase que escrevi naquele dia, viu como é boba?)

Com certa pompa, Tony descreve um pouco de sua juventude com seus amigos de colégio, detalhando alguns acontecimentos irrelevantes e esquecendo fatos que poderiam ser essenciais, como nossa própria memória costuma fazer. Ele constrói o cenário de sua vida de forma que pensemos “que homem bom, que homem comum, que cara chato!”.

Fala sobre ele mesmo e sobre todos nós quando cita as esperanças e sonhos que carregamos na juventude, e como tudo pode mudar em certo ponto, e como encontramos desculpas para nossas não-realizações.

Nós achamos que estávamos sendo maduros quando só estávamos sendo prudentes. Nós imaginamos que estávamos sendo responsáveis, mas estávamos sendo apenas covardes. O que chamamos de realismo era apenas uma forma de evitar as coisas em vez de encará-las.

Já no presente, nosso protagonista recebe uma herança completamente inesperada, o que o faz resgatar acontecimentos que ele fez questão de ocultar, ao forçar a memória e entrar em contato com pessoas do seu passado acaba descobrindo que ele mesmo em certo ponto da vida era uma pessoa muito diferente de quem pensava.

Claro que o procuramos ao ler é realmente o sentido de um fim específico, mas deixando as mínimas revelações para o final, Julian Barnes não dá respostas, as conclusões e perturbações ficam por conta do leitor.

Qualquer spoiler sobre esse livro é tirar todo encanto dele. O que fazemos hoje pode até não nos afetar no futuro, mas pode afetar outros, uma palavra mal dita, pra não dizer maldita, pode martelar eternamente na cabeça de alguém.


O sentido de um fim
Julian Barnes
Rocco
Tradução: Léa Viveiros de Castro
Páginas: 160
Ano: 2012

O Segredo de Jasper Jones, Craig Silvey

O ano é 1965 e o cenário é Corrigan, uma pequena cidade australiana. É aí que encontramos o jovem Charles Bucktin e é aí que ele encontra Jasper Jones e o seu segredo.

Charles é um leitor voraz e aspirante a escritor. Quando Jasper Jones bate à sua janela no meio da noite pedindo sua ajuda, ele o segue, com medo e curiosidade, e acaba descobrindo algo terrível.

Com 13 anos, é difícil guardar um segredo, ainda mais quando não se pode contar nada para Jeffrey Lu, seu melhor amigo, ou Eliza Wishart, que tem o melhor cheiro do mundo. Em meio a tudo isso, Charles ainda precisa lidar com seus pais e o estranho relacionamento entre eles que, devo dizer, tem um final surpreendente.

O Segredo de Jasper Jones é uma narrativa sobre a perda da inocência, sobre a hipocrisia, sobre o arrependimento, sobre a amizade, sobre o amor. É um livro de descobertas e reflexões, para Charles e para quem o lê.

É um romance leve, do tipo que você pode ler enquanto anda pela rua, pois não exige muita concentração. Isso não quer dizer que seja uma história ruim, quer dizer que Craig Silvey escreve como se o jovem Charles estivesse ao seu lado, contando tudo o que aconteceu. Fica a dica para este fim de férias.


O Segredo de Jasper Jones
Craig Silvey
Editora Intrínseca
Tradução: Domingos Demasi
Ano: 2012
Páginas: 288

Deuses Americanos, Neil Gaiman

Eu não sabia o que esperar deste livro, estava na minha lista há muito tempo por causa do autor, mas eu não tinha a mais remota idéia do que se tratava. Eu só esperava muito.

Shadow é o nosso herói, e no sentido mais literal possível. Um homem simples, grandalhão, muitas vezes estúpido e algumas vezes surpreendentemente sábio. É um ex-presidiário, contratado por Wednesday como guarda-costas após um episódio trágico em sua vida, que lhe fez perder o chão e a vontade de viver. Wednesday por sua vez é uma figura obscura, especialista em trapaças e mentiras, que sai pelos Estados Unidos realizando visitas, e encontrando uma lista de figuras conhecidas por nós, como por exemplo um Leprechaun irlandês (que simpatizei imediatamente). Enquanto é arrastado nessa viagem, Shadow mais faz apanhar e se meter em encrencas do que proteger Wednesday como devia.

No meio de um pré-guerra entre os novos e velhos deuses, Shadow, que ainda se considera um cara comum, vai seguindo o fluxo sem entender muito bem pra onde vai, acredito que de uma forma bem próxima ao leitor, que tenta, mas não consegue adivinhar os possíveis rumos.

Nos dois lados dessa guerra estão os deuses da antiguidade, que foram de alguma forma trazidos para a América, dentro de alguma oração ou crença fervorosa, de algum lugar onde eram adorados e a eles dedicados os maiores esforços e melhores sacrifícios. E os novos deuses, que conhecemos muito bem (pode parecer piada, e provavelmente é), como a televisão, internet, eletrônica, etc… Que são adorados hoje, e a quem dedicamos nosso bem mais precioso, o tempo.

Gaiman escreve de forma leve e clara, e no início de cada capítulo há um trecho de música, poema, citação ou ditado popular que se conecta diretamente com o texto que vem a seguir. Muitas vezes li e reli essa parte pra depois conferir a relação com o capítulo.

É um livro para reflexão em vários níveis, nem me atrevo a sugerir que você leia se baseando no que acabei de escrever. Leia pela criatividade do Gaiman, para valorizar todo o estudo e pesquisa que ele realizou para criar essa obra cheia de referencias fantásticas.

Antes de ler Deuses Americanos, eu sugiro que você leia Coisas Frágeis (que a Amanda vai fazer a resenha!), um livro de contos do autor que cativa e encanta, e não tem os pequenos pecados permitidos nas longas narrativas.

Licença para um pequeno desabafo: Todas as vezes que li Neil Gaiman, me maravilhei no início, e depois da metade do livro eu tenho a impressão de que ele esfria. Parece que ele cansou da história e quer dar logo um fim. É uma pena, por que gosto muito do estilo, e admiro toda a sua inventividade. Em uma parte de Deuses Americanos, quando Shadow está refugiado em uma cidadezinha, é possível imaginar o próprio Gaiman, sentado em uma cabana, tentando descobrir o que fazer com o que já escreveu, indeciso entre queimar e terminar.

Em tempo: Obrigada a quem ajudou a escolher o livro na enquete. Memórias de Uma Gueixa foi o vencedor, já estou lendo e adorando! Resenha em breve.

Marina, Carlos Ruiz Zafón

Quando terminei de ler A Sombra do Vento, do espanhol Carlos Ruiz Zafón, fiquei encantada com a narrativa e a história engenhosa construída pelo autor. Querendo mais, comprei Marina.

Para Zafón, Marina é “possivelmente o mais indefinível e difícil de categorizar de todos os romances que escrevi, e talvez o mais pessoal de todos eles”. E ele tem toda a razão. O livro foi de encontro a tudo que eu esperava. É completamente diferente do que eu imaginava e, como o próprio autor disse, difícil de categorizar.

“As vezes as coisas mais reais só acontecem na imaginação, Óscar – disse ela – A gente só se lembra do que nunca aconteceu.”

Marina (1999) segue uma fórmula de sucesso, replicada em A Sombrado Vento (2001): duas histórias que se cruzam e são descobertas através dos olhos de um dos personagens que, neste caso, é Óscar Drai, um rapaz de 15 anos que estuda em um internato.

Em seu tempo livre, Óscar explora as ruas de Barcelona e é durante um de seus passeios que ele conhece a encantadora menina que dá nome ao livro. Ao lado de Marina, Óscar embarca em uma aventura um tanto quanto improvável e cheia de mistérios.

Com apenas 198 páginas, o livro tem uma narrativa leve que, embora tenha elementos literários dignos de atenção, esbarra em pequenos clichês. Além disso, a história que se estende por diversos capítulos tem seu desfecho revelado em 5 páginas ou menos.

Por fim, a pergunta que surge na cabeça de muitos leitores: a história aconteceu de verdade? Não entrarei em detalhes para não estragar a surpresa. Mas fica o convite para quem já leu compartilhar o que achou.

“Às vezes duvido de minha memória e me pergunto se serei capaz de recordar o que nunca aconteceu. Marina, você levou todas as respostas consigo.” – Óscar Drai