a última das redações

25 de novembro de 2011

A sensação era de ter dormido na rampa do terceiro andar, numa tarde quente de fevereiro de 2008, e estar acordando agora, após sonhos onde o tempo era elástico, ora devagar, ora estalando com rapidez.

Eu cheguei uma semana atrasada, tinha perdido o trote e a confraternização daqueles que seriam meus companheiros nos próximos quatro anos. Já tinha passado pela decepcionante constatação de que a minha universidade não tinha um campus, e se constituía em um bloco de pedra, no coração cinza de São Paulo.

As pessoas me perguntavam de onde eu era, como se a pronúncia do R e a lentidão das palavras que saíam da minha boca fizessem parte de um dialeto distante. A professora falava sobre Pierce e Saussure e todos ouviam em um silêncio compreensivo. Ou assim eu pensava. O que eu estava fazendo ali? Passara de raspão no vestibular, tinha deixado a família e os amigos a 150 quilômetros dali e sentia como se estivesse vivendo a vida de outra pessoa. Só queria um diploma pra voltar pra casa.

Não demorou muito e a vida virou uma avalanche de livros, seminários e redações. Uma correria era a minha resposta para todos que perguntavam como estavam as coisas. Eu não tinha aquela vida boêmia e emocionante dos colegas, que se reuniam em bares e festas para celebrar a juventude e o último ano foi um desafio particular que testou os limites e as amizades. Mas, entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

Nestes quatro anos, eu não fiz muitos amigos, nem tive um grupo de afinidades para a foto da formatura. Talvez porque, por muito tempo, pensei que já tinha os amigos que precisava e não via porque mudar minha personalidade para conseguir novas companhias. Mais uma coisa que a faculdade me ensinou: a vida muda, você e os seus amigos também mudam, então faça sempre novas amizades.

Nestes quatro anos, fui uma aluna mediana e me esforcei para merecer as notas que tirei. Fui uma jornalista medíocre, que raramente lia os jornais e revistas semanais. Não sobrava tempo, faltava vontade.

Nestes quatro anos, não consegui o emprego dos sonhos. Fosse porque ele não pagava as contas que recebia debaixo da porta, ou porque os colegas tinham contatos melhores, a oportunidade nunca apareceu.

Nestes quatro anos, eu fui feliz. Modestamente feliz.

E estes quatros anos vão se resumir a uma caixa no porão, um diploma e meia dúzia de boas amizades que serão mantidas. Com 21 anos e uma graduação, tenho o mundo inteiro à minha frente e a assustadora perspectiva de novos sonhos.

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Fábulas, Monteiro Lobato

http://visaodigital.org/tiatati/tag/historia-de-monteiro-lobato/

Fábulas não são lições de História Natural, mas de moral – explica dona Benta para as curiosas crianças que questionam o fato dos bichinhos falarem nas histórias. A partir daí, a vovó mais famosa do Brasil nos encanta com contos onde animais e elementos da natureza se unem para nos trazer valiosas lições sobre a vida e situações cotidianas.

imagesNo dia em que comemora-se o aniversário de Monteiro Lobato – um dos maiores escritores brasileiros e precursor da literatura infantil no país – o livro Fábulas ganha espaço aqui no blog. Uma obra com sonoridade e ritmo que pode ser lida por crianças e adultos e provocar diferentes reflexões e aprendizados.

Muitas das fábulas são, nas palavras de dona Benta, dolorosas, e faz adultos questionarem se aquilo é realmente literatura infantil. Mas a lição por trás das palavras nos faz entender que a vida não é um favo de mel e que devemos aprender com os acontecimentos para seguir em frente.

A didática vovó também dá voz às críticas de Monteiro Lobato quando diz que a gramática é criada da língua e não dona, e como tal, serve os propósitos da narrativa. Além disso, dona Benta explica às crianças a diferença entre literatura com e sem aspas. A primeira se mostra como um pavão, enfeitada, mas muitas vezes desnecessária. Quando as aspas caem, no entanto, nasce o texto puro, apenas com o essencial para transmitir sua mensagem.

Com pérolas como “Ajuda-te, que o céu te ajudará” e “Contra esperteza, esperteza e meia”, o livro nos prepara e carrega cada vez mais para dentro do universo fantástico do Sítio do Pica Pau Amarelo.

5 livros reportagens pra você ter na estante

Livro Reportagem

Na semana em que se comemora o Dia do Jornalista – 7 de abril, trouxemos sugestões de bons livros reportagens que não podem faltar na sua lista:

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1. O Reino e o Poder, Uma História do New York Times – Gay Talese

Talese expõe a filosofia e os princípios editoriais do Times, descreve as mudanças que o jornal sofreu ao longo de mais de um século de existência, identifica suas contradições, analisa a atuação de suas figuras-chave e destaca suas relações (às vezes incestuosas) com o poder político. Também reconstitui reportagens de impacto, como os primeiros relatos do bombardeio americano sobre a população civil do Vietnã do Norte, decisivos para a mudança da opinião pública sobre a guerra.Companhia das Letras.

gomorra112. Gomorra, A história real de um jornalista infiltrado na máfia napolitana – Roberto Saviano

O jornalista Roberto Saviano – que encontra-se sob proteção policial por estar ameaçado de morte pela Camorra – se infiltrou em setores camorristas para descobrir as artérias do funcionamento da máfia napolitana. Saviano ficou enclausurado por vários meses por conta das denúncias reveladas no livro-reportagem ‘Gomorra’. Editora Bertrand Brasil.

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tumblr_m5qcwuwfl61qdpkq5o1_4003. Hiroshima – John Hersey

A mais importante reportagem do século XX – um retrato de seis sobreviventes da bomba atômica escrito um ano depois da explosão. Quarenta anos mais tarde, o repórter reencontra seus entrevistados.Hiroshima permitiu que o mundo tomasse consciência do catastrófico poder de destruição das armas nucleares. Companhia das Letras.

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images4. O fim da guerra, A maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas – Denis Russo Burgierman

O planeta tem cerca de 210 milhões de usuários de drogas ilícitas – dos quais 165 milhões usam somente maconha. Nesta obra, o autor percorre o mundo para conhecer as políticas de combate à canábis. A Denise já publicou a resenha d’O fim da guerra (clique aqui), vale a pena ler! Editora Leya Brasil.

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images-(1)5. Abusado, O dono do morro Dona Marta – Caco Barcellos

O livro é uma lição sobre a lógica, os meandros e o ‘modus operandi’ das corporações criminosas que comandam o tráfico de drogas e outras atividades criminosas no Estado. Através da história de Juliano VP temos um retrato da ocupação do morro pelo Comando Vermelho e da implantação de sua disciplina. Mas não é apenas um livro sobre a história do tráfico. Juliano é um personagem fascinante, um criminoso com refinado gosto literário, preocupado com o destino da comunidade favelada do Rio de Janeiro e cujos contatos iam dos violentos chefes do CV até importantes intelectuais cariocas. Editora Record.

5 Livros para comemorar o Dia Internacional do Livro Infantil

livro infantil

No século XVII, a literatura infantil era uma ferramenta para educar as crianças de acordo com os costumes morais da sociedade. Quatro séculos depois, os livros não apenas instruem, mas fomentam a imaginação das crianças, incentivando a formação de jovens leitores, que se entregam ao mundo de fantasia e descobertas que as narrativas proporcionam.

Hoje, 2 de abril,comemora-se o Dia Internacional do Livro Infantil, em homenagem ao escritor dinamarquês Hans Christian Andersen, em virtude das inúmeras histórias criadas por ele. Você pode nunca ter ouvido falar de Andersen, mas com certeza teve sua infância cercada por suas obras: O Patinho Feio, O Soldadinho de Chumbo, A Pequena Sereia, As Roupas Novas do Imperador.

“Tanto os clássicos da literatura infantil quanto os livros somente ilustrados, proporcionaram o desenvolvimento do imaginário das crianças, bem como o aspecto cognitivo, desenvolvendo seu aprendizado em várias áreas da vida” – afirma a pedagoga Jussara de Barros no site Brasil Escola.

A International Board on Books for Young People (www.ibby.org) oferece, anualmente, o troféu Hans Christian aos melhores escritores de livros infantis. O Brasil já entrou para lista duas vezes: em 1982 com Lygia Bojunga Nunes e em 2000 com Ana Maria Machado.

Veja abaixo 5 indicações da Amora Literária para comemorar o Dia Internacional do Livro Infantil:

ArquivoExibir1. Contos de Hans Christian Andersen, Hans Christian Andersen

O livro traz 80 contos traduzidos do dinamarquês (língua original de Andersen) para o português. As histórias e os contos escritos por Andersen refletem os contrastes sociais da época. Ao confrontar os padrões de comportamento dos poderosos e dos desprotegidos, Andersen defendeu seu ideal de igualdade entre os homens. A infância pobre do escritor foi base para suas histórias. Editora Paulinas

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Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo2. Fantásticos Livros Voadores de Modesto Máximo, William Joyce

A história é simples. O que não é tão simples é a paixão pelos livros que a história contém. E não é simples porque é sutil. Passa pela combinação do texto, em frases curtas e diretas, com os desenhos, riquíssimos, cheios de detalhes. Editora Rocco Jovens Leitores. Você também pode ver o curta originado pelo livro clicando aqui.

Meu Pé de Laranja Lima3. Meu Pé de Laranja Lima, José Mauro de Vasconcelos

Na obra juvenil mais conhecida de José Mauro, a pobreza, a solidão e o desajuste social vistos pelos olhos ingênuos de uma criança de seis anos. Nascido em uma família pobre e numerosa, Zezé é um menino especial, que envolve o leitor ao revelar seus sonhos e desejos, por meio de conversas com o seu pé de laranja lima, encontrando na fantasia a alegria de viver. Editora Melhoramentos

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Asterix-nos-Jogos-Olímpicos4. Asterix nos Jogos Olímpicos, Rene Goscinny, Albert Uderzo, R. Goscinny
Asterix é uma série de histórias em quadrinhos criada na França por Albert Uderzo e René Goscinny no ano de 1959. Até os dias de hoje foram lançados 34 álbuns, que venderam 350 milhões exemplares em todo o mundo[6], um dos quais é uma compilação de histórias curtas. Editora Record

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Reinações-de-Narizinho

5. Reinações de Narizinho, Monteiro Lobato

Você quer descobrir como a boneca Emília começou falar e nunca mais fechou a torneirinha de asneiras? E conhecer de perto Lúcia, a menina do narizinho arrebitado e neta de Dona Benta, que está sempre inventando novas reinações? Pois então mergulhe nas páginas deste livro, que tem início com a primeira história infantil escrita por Monteiro Lobato. Editora Globo

Divórcio

– Eu quero o divórcio.

– Você tá falando comigo?

– Não, com a Fátima, minha outra esposa. O que você acha, Helena?

– Mas Carlos, o que mais você quer de mim? Eu faço o seu café, assisto o jornal com você e passo suas camisas.

– Você claramente não tem mais interesse em mim, então eu quero o divórcio.

Desligou a TV e acomodou-se no sofá. Carlos deveria ser o único homem na face da Terra que gostava de discutir o relacionamento.

– Carlos, depois de tanto tempo juntos, como você pode dizer uma coisa dessas?

– Eu vi você olhando pro Roberto na noite passada, quando ele veio jogar baralho aqui em casa.

– Mas é claro que eu estava olhando pro Roberto! Você viu a mancha na camisa dele? Eu não sei como a Lurdes deixa ele sair daquele jeito.

– Ah é? E pro Luiz, hein? Por que você estava olhando para o Luiz?

– E era possível olhar pra outra coisa que não aquele corte de cabelo horroroso? Quem o Luiz pensa que é, o Neymar?

Ele escondeu a risada. Helena era a mulher mais divertida que ele já conhecera, mas não podia ceder ao seu senso de humor naquele momento, eles estavam discutindo o relacionamento.

– Olha, Helena, diga o que quiser, mas eu sei que você não me ama mais.

– Carlos, meu querido, me diz como eu posso provar que você está errado?

– Faz um striptease pra mim!

– Hahaha, você sinceramente acha que eu estou em condições de fazer uma dança sensual?

– Tá vendo? Não me ama!

– Tá bom, se é isso que você quer, espera aqui que eu vou me preparar. E vê se não dorme!

– Eu não durmo se você não demorar – disse com o sorriso de um jovem tarado.

Quando Helena voltou para a sala, a camisola transparente mostrando os contornos do corpo, Carlos sabia que ela o amava, e teve a certeza de que casara com a mulher certa. Ficariam juntos para sempre!

Helena ligou o rádio e começou a dançar, virando de costas para provocá-lo. Subiu na mesa de centro com certa dificuldade – seus joelhos já não eram como antes. Quando virou para ver se Carlos estava gostando, viu o marido estatelado no sofá, a mão no peito e o olhar apavorado. Desceu o mais rápido que pode, ouvindo o corpo estralar. Chamou uma ambulância.

Quando os paramédicos chegaram, não sabiam a quem socorrer primeiro: a senhora com o quadril quebrado ou o velhinho que estava tendo um infarto porque sua esposa de 65 anos estava fazendo uma dança sensual. Sabiam, pelo menos, que havia amor ali.

Foto: Marina Rosso

Foto: Marina Rosso

 

 

A Cabana, Willian P. Young

O texto de hoje é para aqueles que acreditam em uma Força Maior. Eu chamo de Deus, mas Amor também é uma boa definição.

Willian P. Young é um canadense de 57 anos, filho de pais missionários que até então escrevia pequenos textos para presentear amigos e parentes. Certa vez, a esposa sugeriu que ele escrevesse algo para seus 6 filhos, falando sobre a relação dele com Deus. Uma coisa levou a outra e ele publicou A Cabana.

O livro é uma obra de ficção que conta a história de Mack, um homem que, por causa de um acontecimento infeliz, é dominado por uma Grande Tristeza e, a partir daí, guiado por um caminho de reconciliação com Deus. Particularmente, achei algumas coisas bem fantasiosas, mas no geral o livro é muito bom e nos faz olhar pra Deus com olhos de profundo amor.

(Jesus diz:) Já notou que, mesmo que me chamem de Senhor e Rei, eu realmente nunca agi desse modo com vocês? Nunca assumi o controle de suas escolhas nem os obriguei a fazer nada, mesmo quando o que estavam fazendo era destrutivo para vocês mesmos e para os outros?

Para Young, é simples assim: o Mal é a ausência de Deus. O livre arbítrio não é só um algo que nos permite dizer: “eu faço o que quiser“. A partir do momento que Deus nos deu essa escolha, Ele nos deixou escolher. Parece redundante, mas não é.

O mais interessante d’A Cabana é a maneira como o autor trabalha a espiritualidade sem entrar no mérito das religiões, mas escrevendo sobre o que é comum e predominante em todas elas: o amor.

Além disso, Young responde de maneira muito simples a dúvida que é recorrente diante de tragédias: Por que Deus permite que coisas ruins aconteçam com pessoas boas?

Mack, eu crio um bem incrível a partir de tragédias indescritíveis, mas isso não significa que as orquestre. Nunca pense que o fato de eu usar algo para um bem maior significa que eu o provoquei ou que preciso dele para realizar meus propósitos. […] A graça não depende da existência do sofrimento, mas onde há sofrimento você encontrará a graça de inúmeras maneiras.

É uma ótima leitura para essa época do ano. Nos faz pensar sobre a lógica por trás dos acontecimentos da vida e dá carga extra às energias que naturalmente se renovam com a vinda do próximo ano!

Ainda que o pecador faça o mal cem vezes, e os dias se lhe prolonguem, contudo eu sei com certeza, que bem sucede aos que temem a Deus, aos que temem diante dele. – Eclesiastes 8:12

Quando encontrei minha doppelgängster (Final)

Esse texto é a continuação do conto Quando encontrei minha… (Parte 1), Quando encontrei minha doppelgängster (Parte 2) e Quando encontrei minha doppelgängster (Parte 3).

Funciona assim: uma começa, a outra termina e vice-versa. O tema é escolhido por quem começa e é surpresa pra quem termina, só descobrimos junto com vocês, quando for publicado. Clique nos links para relembrar!

Estava mandando-a para o inferno nos meus pensamentos e tentando raciocinar um jeito de sair dali quando o Jacaré escancarou a porta e gritou para Priscila (a rainha do deserto tráfico) que os fardados estavam na área.

Minha versão antagônica levantou com tanta pressa que virou o bule de chá em cima de mim.

– FILHA DA P… – o tapa na minha cara não me deixou terminar. Jacaré estava me amarrando, enquanto eu sentia a bebida quente descer pela minha perna, molhando até as meias e possivelmente meu celular.

– Você fica quietinha e não se esqueça que por falta de um clone, eu tenho dois, o que te torna completamente descartável – sibilou Priscila.

Atravessamos alguns cômodos que nos levaram à parte de trás da casa, onde um Chevette nos esperava. Fui empurrada para dentro, com Jacaré ao meu lado, Priscila no banco da frente e um dos capangas dirigindo, com uma tatuagem no braço que dizia Guiado por Deus, amado pela minha mãe.

– Por que está me levando? Não era isso que você queria: me entregar para a polícia?

– Queridinha, tudo tem a sua hora. E quando eles te descobrirem, eu já estarei nas Bahamas. – disse Priscila antes de enfiar o capuz preto e fedido na minha cabeça.

Seguimos por uma rua esburacada e só Deus saberia meu paradeiro. Quando tiraram o capuz, estavámos no que parecia ser uma chácara, pelas árvores entrevistas na janela. O típico lugar que a polícia invade nos filmes. Eu precisava dar um jeito de usar meu celular – se é que o chá não o estragou.

– Eu preciso ir ao banheiro. Por favor.

Olhares enviesados me diziam que eu não seria atendida.

– Por favor, estou naqueles dias e com muita vontade de fazer xixi.

– Jacaré, leva essa menina pro banheiro e fica na porta esperando, antes que ela faça uma sujeira aqui na sala.

Entrei no banheiro e liguei a torneira. Abri o celular e constatei que 1) ainda estava funcionando e 2) estava sem sinal. Droga de fim de mundo! Antes que eu pudesse pensar em outra estratégia, a voz de um megafone gritou:

– Aqui é a polícia. Nós sabemos que existe um refém na casa. Entreguem a moça e saiam com as mãos para cima.

Houve uma batida violenta na porta do banheiro e eu a abri, fingindo abotoar a calça. Jacaré estava no chão, inconsciente. O capanga com a tatuagem no braço me puxou e disse: Corre, se salva!

– Mas a polícia…

– Eu sei, fui eu que chamei. Quer dizer, minha mãe. Ela quer me ver livre da Priscila há muito tempo.

Quase sem acreditar, tropecei no pé do Jacaré e saí em disparada. Priscila estava amarrada e amordaçada na sala.

– Tchau, Pri, querida.

Abri a porta da casa e saí com as mãos pra cima.

– Parada aí, Priscila! Nós queremos a refém primeiro.

– Sou eu! Eu sou a refém, por favor, me ajudem!

– Priscila, estamos avisando! Fique parada ou vamos atirar!

– Não! Eu não sou a Priscila! Eu sou…

Caí com as costas no chão e uma bala no peito. O céu estava azul e cheio de nuvens. Um lindo dia pra se morrer.

Acordei assustada e com a cama molhada de suor. Me apalpei para ter certeza de que estava viva e de que tudo tinha sido apenas um sonho – sorte!

Tomei um banho, vesti a roupa do trabalho e passei na padaria para o desjejum. A garçonete derrubou metade do meu café ao colocar a xícara no balcão. Quando estava prestes a reclamar da sua falta de jeito, percebi que a conhecia de algum lugar. Os cachos muito curtos davam outra moldura ao rosto e deixava a nuca à mostra como eu nunca tive coragem de cortar, mas era óbvio de quem eram aquelas sobrancelhas e o nariz nem um pouco delicado.

O maior déjà vu da história da Terra! Não era possível…

Peguei o guardanapo e estava prestes a escrever meu telefone e um “Me liga, somos iguais!” quando lembrei do sonho. Lembrei de tudo e do final.

Coloquei o dinheiro no balcão apressadamente e peguei minha bolsa para ir embora, deixando o café intacto. Passando pela porta, esbarrei em um homem. Em seu braço, lia-se: Guiado por Deus, amado pela minha mãe. Corri até não poder mais.