Em Chamas e A Esperança, Suzanne Collins

Esta resenha 2 em 1 pode e vai conter Spoilers.

Peguei Em Chamas com os dois pés atrás depois de ler Jogos Vorazes, a história prometia muito, mas fiquei com medo que fosse mais uma série sobre um triângulo amoroso que finge que vai pra algum lugar mas nunca chega lá. Mas pra minha alegria, chega! E chega de forma épica!

Me perdoem, mas não deu pra tirar outra foto.

O livro começa com uma choradeira da Katniss, depois de descobrir que sua vida não pertence mais a ela mesma e que terá que assumir as consequências das atitudes tomadas publicamente para que conseguisse sair dos Jogos com vida. Durante a turnê da vitória, nossa heroína começa a perceber uma movimentação organizada entre os Distritos e a ser diretamente pressionada pelo presidente, que não está nem um pouco feliz com essa situação.
Mas o drama acaba (ou começa pra valer), quando no anúncio do Massacre Quaternário – uma edição especial dos Jogos Vorazes que acontece a cada 25 anos, e muito mais brutal –  Katniss vê seu pior pesadelo se tornar realidade, ela será obrigada a voltar para a arena.

24 vitoriosos lançados em uma arena planejada para destruir a todos em pouquíssimo tempo. Tic Tac. As personalidades dos vitoriosos são expostas, e dão uma ideia de como experiências traumáticas mudam para sempre as pessoas. Alguns já não tem o que temer pois lhes foi tirado tudo, pouco a pouco para que continuassem submissos.

O final dessa edição dá início a guerra, inicia-se o confronto direto entre Distritos e Capital.

Em A Esperança Katniss se torna o símbolo da rebelião dos Distritos, agora ela é o Tordo, e é manipulada desta vez pelo lado que acredita ser amigo. O último livro da trilogia traz o conflito interior entre as responsabilidades de ser este símbolo e suas próprias vontades, e suas culpas. Ela quer lutar e se vingar por tudo que a ditadura da Capital impôs em sua vida, e não importa o que possa acontecer, nada fica por muito tempo no caminho de seu objetivo.

Muito sangue, ossos quebrados, membros amputados, tortura física e  psicológica. Muito sacrifício em prol do bem maior, muitas baixas de civis. É uma guerra como qualquer outra, mas contada pelas amargas lembranças de uma menina que absorveu o impacto de algo muito maior do que planejava e podia aguentar.

O triângulo amoroso volta a aparecer, claro! Mas oprimido pela violência da guerra. E prova que o amor espera, muda de forma, mas não morre.

E chega!

Não respirei enquanto lia Em Chamas, e li A Esperança num tiro só. Emocionante. Muita ação e muitos efeitos especiais (pelo menos na minha cabeça, rs). Se for fielmente produzido a Lionsgate fará fortuna!

A trilogia é uma história jovem para todas as idades.

LOVE – A história de Lisey, de Stephen King

“… o lago em que todos nós vamos beber e nadar, e em cujas margens pegaremos um peixinho… o lago que algumas almas destemidas singram em seus frágeis barcos de madeira atrás dos peixes grandes… o lago da vida, a taça da imaginação…”

Se você se basear no que encontra por aí a respeito deste livro deve imaginar, como eu imaginei, que é um romance romântico, mas você precisa ter uma coisa em mente: é um livro do Stephen King.

Demorei muito pra te encontrar começar a escrever essa resenha por que é uma história pesada e precisa de um tempo de reflexão. Ao contrário de muitas histórias que li recentemente, que me fizeram ter vontade de sair pulando  e contando pra todo mundo sobre o quão legal elas eram, o final de LOVE me deu foi um grande alívio por ter terminado e poder voltar à sanidade.
Você pode encará-lo como um terror fantasmagórico ou psiquiátrico, escolha o que te incomodar menos.

Começando analisar pelo título, podemos imaginar que a tal da Lisey seja a personagem principal, e pode até ser, já que os fatos acontecem fisicamente com ela, mas a maior presença que sentimos é de Scott Landon, escritor e falecido marido de Lisey.
Scott está por todo o lado, no antigo celeiro/escritório, nos móveis, nas expressões e apelidos compartilhados pelo casal, nas músicas citadas e o tempo todo na mente de Lisey, até pensando por ela.

A história se inicia dois anos após a morte de Scott quando Lisey finalmente sente que é a hora de desbravar e despachar os pertences deixados por ele. A tarefa se mostra ainda mais complicada quando Lisey se vê ao mesmo tempo enfrentando um Caubói do Espaço Sideral (como eles chamam os fãs cheios de teorias e birutas), tentando ajudar sua irmã que está passando por sérios problemas psiquiátricos e montando um estranho quebra-cabeça para a compreensão da verdadeira história de Scott, uma caça ao bool, uma caça ao tesouro.

Lisey é conduzida por pistas direto para a infância de seu amado, e à um lugar onde ele se refugia, de onde ele tira sua inspiração, onde está sua loucura e sua ruína.

São muitos acontecimentos e muitas lembranças agrupadas em um curto espaço de tempo, e tudo se encaixa perfeitamente, como se tivesse sido detalhadamente planejado por Scott Landon. Lisey encontra seu prêmio no final.

Refletindo sobre tudo, concluo que LOVE é sim uma história de amor, uma história sobre como é difícil e às vezes absurdo amar, uma história sobre como Lisey amou Scott apesar de não compreendê-lo, apesar do medo que ele lhe proporcionava, apesar de tudo que teve que abrir mão para ficar ao seu lado.


Dica:
Já que estou falando do mestre do horror, se você gosta do gênero, e ainda não conhece o filho do King, dê uma chance ao príncipe(hein? hein?).
Joseph Hillstrom King, mas publicamente como Joe Hill, é autor de A Estrada da Noite e Fantasmas do Século XX, são obras que me fizeram deixar a luz acesa por mais tempo.

quando ela cai no sofá, so far away

Podemos remarcar para quarta em vez de terça?

Os rapazes realmente não fazem ideia do que significa remarcar ou desmarcar um encontro, fazem? Ela passara a noite anterior em meio a água oxigenada, cera quente, pinças, lixas, esmaltes e cremes. Tinha passado e pendurado, cuidadosamente, o pretinho básico e separado a gargantilha que usaria. Comprara um conjunto novo de lingerie e um perfume, porque o dela tinha acabado.

Mas tudo bem. Ele era, after all, um bom partido. Estava se mudando para o Rio de Janeiro na próxima semana e queria vê-la. Então tudo bem, ela podia remarcar para a quarta-feira.

Acordou naquele dia com um frio na barriga. Sentia falta do cheiro e da companhia dele. Na verdade, eles nunca foram muito próximos, mas ela sentia que existia alguma coisa ali, por menor que fosse.
Insegura, mandou uma mensagem, perguntando se o encontro estava de pé. Passou a tarde buscando uma resposta que nunca veio.

Ridículo.

Era ridículo parar a vida e se planejar assim para alguém. Prometeu, mais uma vez, que não faria isso novamente.

Chegou em casa no fim do dia e não sabia o que fazer. Ligava para ele? Esperava? Qual era o protocolo de situações como essas?

Decidiu esperar. Tomou banho, vestiu o roupão e sentou na sala para assistir um filme.

19 horas.
19 horas e trinta minutos.
20 horas.

Ele poderia ao menos ter ligado para dar uma desculpa vazia e desmarcar.
Caiu no sofá, so far away. Vinho a beça na cabeça. Eu que sei.

improvável

Procurou uma cadeira mais ao fundo, um lugar onde as pessoas a vissem, mas que não a deixasse no spotlight. Mais pessoas chegaram e também escolheram seus lugares. Alguns conhecidos, alguns cumprindo os conhecidos estereótipos de uma dinâmica de grupo: as patricinhas, com roupas da moda e cabelos descoloridos; os garotos descolados, com as mangas da camisa dobradas e aquele sorriso torto supostamente cativante; os nerds, com seus óculos e roupas engomadas. No meio daquela festa estranha com gente esquisita galera, reparou na menina de cabelos longos, escuros e lisos. Um sorriso simpático, All Star nos pés, ar despojado. Ela parecia legal. Poderiam ser boas amigas.
*
Elas se viam apenas nos dias de jogos da escola. Mas não se gostavam. Por quê? Nem elas sabiam. Então ela começaram a estudar na mesma sala. E perceberam que eram muito parecidas. Tão parecidas que seriam amigas. Para sempre.
*
Era a terceira vez que ouvia o mesmo comentário. Nossa, você se parece tanto com aquela menina do terceiro ano. Não, não parecia. Qual era o problema das pessoas? Cabelos cacheados e óculos as faziam gêmeas? Estava ruminando suas silenciosas reclamações na biblioteca quando ela chegou. Tá vendo? Não somos parecidas. Nada parecidas. Um conhecido decidiu mostrar um vídeo dos Muppets, aquele com as fantoches rosas, sabe? Olha, são vocês duas! Deu um sorriso educado e trocou algumas palavras com a sua sósia. Curioso pensar que tudo isso começou em uma biblioteca, elas cercadas de livros, como um presságio. Forever.
*
Estava na empresa há algum tempo. Já tinha demarcado seu território se familiarizado e feito alguns amigos. Então ela chegou: a moça nova que ia cuidar do plano de saúde. Ela nunca sabia como agir nesses casos. Sempre que tentava fazer uma pessoa se sentir parte do grupo, ela mesma acaba por se sentir uma estranha no ninho. Mas ela parecia legal. Gostava de ler, ouvia boas músicas, tinha boa cabeça. Se encontravam às vezes quando iam escovar os dentes, trocavam 6 palavras e tchau. Talvez pudessem ser amigas.
*
Moravam na mesma rua, tinham nomes similiares, assim como seus pais. Faziam aniversário um dia antes da outra. Gostavam das mesmas coisas. Poderiam ser irmãs, mas eram amigas.
*
Era dia de homenagear o coleguinha. Funcionava assim: às sextas-feiras, você podia levar um mimo e presentear um colega que fosse importante pra você. Quando ela parou lá na frente, com aquele mini chapéu laranja de biscuit, eu sabia. Eu sabia que ela me escolheria, da mesma maneira que ela escolheu sentar ao meu lado no primeiro dia de aula. Quando cresceram e ela se mudou de cidade, passaram a trocar cartas e enviar fotos. Esperava ansiosamente pelo carteiro. Não pelo e-mail do Facebook. Pelo carteiro.

Jogos Vorazes, de Suzanne Collins

Gosto de intercalar minhas leituras, procuro ler gêneros diferentes, para que a última história não interfira na atual. Então, quando terminei Caçadores de Bruxas tomei um banho de realidade com Um Dia (já resenhado pela Amanda), com o David Nicholls esfregando muitas coisas na minha cara.

Depois parti para mais uma ficção! Assisti o trailer do filme na internet, achei interessante, e já que tem livro vamos ler antes que ele seja (possivelmente) distorcido no cinema.

Jogos Vorazes nos mostra Panem, um país dividido em 13 Distritos e uma Capital, construído sobre uma América do Norte destruída por guerras e desastres naturais. Depois de uma  rebelião dos Distritos contra a Capital, o 13º Distrito foi erradicado e como um lembrete para os restantes, para que não houvessem novas tentativas foram criados os Jogos Vorazes. Todos os anos, um menino e uma menina entre 12 e 18 anos de cada Distrito são sorteados e enviados para a Capital para participar dos jogos.

Jogos Vorazes é um reallity show macabro, transmitido ao vivo via Pay Per View para toda Panem, onde cada um dos participantes deve enfrentar seus concorrentes até que sobre somente um vivo na arena.

A história é narrada por Katniss Everdeen, uma participante da 74ª edição dos Jogos e moradora da área mais pobre do Distrito 12. Como a maioria das narrações em primeira pessoa, muitas vezes não é possível ter a real dimensão do que está acontecendo na trama, enquanto muitas cenas se misturam com os sentimentos da personagem central, mas é fato, você vira fã da Katniss logo no início, mesmo que ela não consiga te explicar muito bem quem é e onde está. Mas isso de forma alguma é uma coisa ruim, te dá liberdade para tirar algumas conclusões e ter certas expectativas sobre o que está por vir.

Apesar de o público alvo ser juvenil, não pense que Suzanne Collins economiza sangue e violência, na arena as alianças duram muito pouco e não existe piedade.

Nossa heroína é uma sobrevivente, uma menina forte, e que sabe lutar com as armas que tem à disposição.

Um pouco de romance, como não pode faltar, que dá uma dica para o segundo livro da série. Mas essa parte é spoiler demais para que me arrisque a contar. A continuação (Em Chamas) já está na minha lista, e indica ser ainda melhor que o primeiro.

Minha opinião pessoal é que Jogos Vorazes não é um livro excepcional, logo nos primeiros capítulos é possível ter uma ideia sobre o fim. Mas a viagem até o final é compensadora, prazerosa e em muitos momentos, surpreendente.