Sonho que se sonha só

Por Denise Ferreira

Depois de quase meia hora explicando o problema ao psicólogo que finalmente resolvera procurar, ele perguntou, cheio de esperanças:

– O que o senhor acha Doutor?

O Doutor, tirou os óculos, esfregou os olhos em sinal de cansaço, colocou as anotações de lado. Aquele era seu último paciente do dia.

– Bom, eu não sei se eu sou a pessoa mais indicada para te ajudar. Você já procurou alguma clínica do sono?

– Já. Já sim. Foi a primeira coisa que fiz quando os sonhos começaram. Fiz vários exames, mas não fui diagnosticado com nada. De tanto insistir até me colocaram em alguns tratamentos experimentais, mas não deu em nada, eu continuo falando…

– Ok, então eu acho que temos que ir até a raiz do problema. Encontrar o assunto mal resolvido, tentar esclarecer o que te incomoda tanto. Não é garantido, mas acredito que é uma forma de tratar e fazer com que os sonhos parem.

– Mas eu não quero que eles parem Doutor.

– Mas você disse que eles estão acabando com o seu casamento. – O Doutor já não estava entendendo mais nada, talvez fosse o seu corpo tentando desligar a mente acordada há tantas horas.

– O que eu quero é parar de falar durante os sonhos. – O paciente disse bem devagar, tentando ser compreendido dessa forma. – Minha mulher tem sono leve e fica arrasada quando escuta. Ultimamente eu acho que ela nem anda dormindo direito, fica acordada até tarde pra ver se eu falo alguma coisa.

– E o que você costuma sonhar?

– Com coisas bobas. Sonho que estamos tomando café, discutindo sobre cinema – ele ri pra si mesmo – semana passada eu assisti aquele filme novo Hugh Jackman, “Gigantes de Aço”, sabe?

– Sei sim, parece muito bom… – Com certeza o Doutor preferiria estar no cinema àquela hora.

– E é mesmo, aí sonhei que nós estávamos saindo do cinema, e ela reclamava que era filme “de menino”, que só tinha ido pra ver o Wolverine, – rindo pra si novamente – vê se pode Doutor. Ás vezes sonho que estamos almoçando na casa dos pais dela, almoço de domingo, e eu nem cheguei a conhecê-los.

– E você não sofre quando sonha com essas coisas?

– Eu sofro, um pouquinho, mas é um sofrimento gostoso. Mas minha mulher, ah Doutor! Eu sei que ela sofre muito por conta disso. E acaba comigo, eu não quero que ela fique assim por minha causa.

O doutor suspira, estica os braços com as palmas das mãos pra cima, em sinal de obviedade.

– Então o melhor não seria tentar parar os sonhos?

– Eu sei que é egoísmo, mas eu gosto de imaginar como teria sido. Eu amo vê-la sorrir nos meus sonhos, como ela está hoje, com algumas rugas, e o nariz não tão empinado. – Ele para, fica pensativo por alguns instantes, sua expressão vai de nostalgia à descoberta, como se tivesse acabado de resolver um problema matemático complicadíssimo. – Doutor, pensei uma coisa louca agora, e se eu tentasse mudar o nome dela pelo nome da minha esposa nos sonhos? Aí não teria problemas em ser ouvido.

O Doutor ficou parado, olhando perplexo para o paciente, sem acreditar naquela idéia estúpida.

– Tá Doutor, não me olha assim, foi uma ideia estúpida.

– …

– Desculpa, eu não devia nem ter falado isso, muito, muito estúpido, e um pouco complicado de executar, eu acho…

– Vamos deixar essa idéia de lado ok? Me conta quando foi a última vez que você a viu? Você se lembra?

– Um dia antes dela ir embora.

– E sabe como ela está agora?

– Nem quero saber…

– Você tem que procurá-la e resolver isso, se não você não vai ficar em paz. É o único jeito.

– De jeito nenhum, já foi resolvido! Há 15 anos eu resolvi que não ia dar certo, falei que o melhor seria se ela fosse embora e me casei. Ponto. Resolvido.

O Doutor já não sabia o que dizer, seus olhos estavam cheios de areia, e não conseguia se concentrar e analisar o real problema do paciente. Só queria fechar o consultório e ir pra casa.
E foi o paciente que olhou o relógio e informou que a sua consulta já tinha acabado. Levantou, vestiu o casaco, e foi falando enquanto saía.

– Eu não reclamo Doutor. Minha vida tem sido muito boa. Mas eu quero continuar sonhando com a alternativa.

A Amora Literária

A Amora Literária nasceu de três grandes amores.

O amor entre duas amigas, nutrido à distância por conversas infindáveis nos meios de comunicação online.

O amor pelos livros. Pelo cheiro dos livros novos, pelas marcas dos livros velhos, pela companhia que eles representam em momentos de tristeza, pela maneira como nos fazem ver o mundo de um jeito diferente, pelos lugares para os quais eles nos levam. Por essa relação que nos dá sonhos, alegrias, lágrimas e esperança, sem nunca pedir nada em troca.

E o amor pela escrita, que é, para nós, uma amiga e uma terapia, que enxerga o nosso melhor e o nosso pior e os traduz em palavras no papel ou em uma tela branca no monitor.

A Amora Literária foi criada para compartilhar esse mundo mágico da linguagem que, a sua maneira, nos ajuda a viver com sanidade e alegria.